Tomaste a pílula do dia seguinte? Pois, eu também!

Ao longo da vida, todas passamos por momentos em que nos sentimos completamente diferentes, sozinhas, e por vezes até perdidas. Temos a sensação que somos únicas, que mais ninguém passou por isto ou está a passar. Até o podíamos ter partilhado com uma amiga, ou simplesmente com alguém em quem confiamos muito, mas, o medo de ser julgada, é mais forte.

Comprar a pílula do dia seguinte é um desses momentos.

Começamos literalmente a sofrer de ansiedade, um sentimento terrível que só traz desconforto, medo e preocupação. Olhamos à volta – estamos sozinhas na fila ou está cá mais alguém? Está cá mais alguém. É nesta altura que nos passa tudo pela cabeça: achamos que todas as pessoas à nossa volta estão a olhar para nós, que vamos ser julgadas ou criticadas pelos nossos mais queridos ou numa perspectiva mais alargada, pela sociedade em geral. Imaginamos logo o que os outros vão dizer quando souberem.

O que nós mulheres nos esquecemos tantas vezes, é que na nesta situação existem outras mulheres e, outras tantas já passaram pelo mesmo ou irão passar. Mas, mesmo que isto nos venha à memória, a sensação de não sermos compreendidas está lá, a corroer-nos…

Só queremos paz de espírito e isso obviamente passa pela aceitação da nossa decisão. Estamos perdidas entre o que é certo e o que é errado.

É nestes momentos que precisamos que nos lembrem que a possibilidade de ter acesso à contraceção de emergência, e a todos os outros métodos contracetivos, contribui para a qualidade de vida das mulheres e o direito de poder escolher: eu não quero uma gravidez não planeada, não desejada. É uma decisão que nós podemos tomar, sem consentimento ou aprovação de mais ninguém, que nos afirma enquanto género. Até porque hoje, a mulher tem um lugar na sociedade que antes não tinha.

Esse lugar arduamente conquistado, envolve mais autonomia, mais liberdade de expressão, bem como a emancipação do seu corpo, das suas ideias e da forma como se posiciona socialmente. Para que não reste margem para dúvidas, a mulher de hoje assume um lugar diferente na sociedade, com novas oportunidades  e essencialmente responsabilidades. Uma realidade que é clara quando se observa a transformação da mulher em parceiro ativo. E é aqui que afirmamos: a mulher tem o direito a planear e a decidir qual a altura certa para engravidar.

A evolução da contracepção em Portugal é notória, sendo considerada essencial para uma vida sexual e reprodutiva saudável da mulher, e claro do homem. Informação não falta, bem como aconselhamento ou acesso e facilidade à utilização dos métodos contracetivos, sendo que alguns são gratuitos ou comparticipados. Mas claro que, muitas vezes, temos dúvidas e falar, por exemplo, sobre a pílula do dia seguinte, no dia a dia, com quem nos rodeia, nem sempre é fácil.

Apesar de toda a informação disponível a ansiedade que toma conta de nós nestes momentos só alivia quando falamos com outra mulher que nos diz – Eu também já passei por isso.

Um facto engraçado é que as mulheres que foram responsáveis e conscientes e decidiram tomar a pílula do dia seguinte porque tiveram uma relação sexual não protegida ou o método contracetivo falhou, têm uma forma sensível de encorajar e acalmar as outras, com o seu testemunho e a sua vivência positiva. Porque é positivo não engravidar quando não o queremos. Quando não o desejamos. Quando não podemos.

E assim, nasceu a iniciativa # EuTambém. Porque os acidentes acontecem, seja na cama, no sofá, no carro ou na sala… Imagina se tudo fosse tão simples como carregar num botão que podes encontrar online, nas farmácias ou em formatos de publicidade. Um botão que gera conversas nas redes sociais e representa todas as mulheres que em algum momento das suas vidas tiveram que tomar a pílula do dia seguinte. Um botão que qualquer mulher possa carregar e dizer “eu também”.

Se fizeres o simples exercício de perguntar a todas as mulheres que conheces, muitas te vão dar como resposta… # EuTambém!

Todas nós temos histórias para contar, testemunhos para transmitir, conselhos para acalmar. Chega de guardarmos tudo isto só para nós. É tempo de carregar no botão e gritar # Eu também!